terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dois


Se não fosse 4 para 5. Não fosse agosto. Não fosse 2012. Não fosse aniversário. Não fosse Brunna. Não fosse Juninho. Não fosse a paciência para a fila. Não fosse o gim com chiclete. Não fosse o beijo. Não fosse a dança. Não fosse o cigarro. Não fosse a melhor noite.

E ainda serão muitas danças. Serão muitas viagens. Serão muitos anos. Serão apartamentos (ou casas). Serão mudanças. Serão cachorros. Serão muitas caminhadas. Serão cigarros. Serão vinhos. Serão manhãs. Serão domingos. Serão os melhores dias da vida. Serão dois. Seremos sempre eu e você.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sem nome

Eu sou Mirela, jornalista, e fui atropelada por mais de uma semana na rua Caio Prado porque os que vieram da rua Augusta viram só o sinal vermelho que acabou de fechar - enquanto o sinal verde para pedestres acabou de abrir.

Eu sou Alessandro, escritor, e fui atropelado ontem - serei atropelado hoje e amanhã - na esquina da rua Frei Caneca com a Antonia de Queiroz porque correr na descida e dobrar como no videogame é mais divertido. E eu só fui buscar meu cigarro.

Eu sou Geralda, aposentada, e fui atropelada nos últimos dois anos na rua Cerro Corá, na faixa de pedestres quase com a rua Aibi, porque não pude atravessar enquanto a passagem para quem está a pé estava liberada e, hoje, as pessoas que estão no carro têm mais pressa do que eu.

Eu moro na rua e fui atropelada em frente à igreja da Consolação enquanto pedia algo para os céus. Eu nem me lembro o que e nem sei o motivo.

Eu sou estudante da escola Caetano de Campos e, por um segundo, meu skate não foi atropelado comigo. Ele atravessou para o outro lado da João Guimarães Rosa e chegou na praça Roosevelt primeiro.

Eu bebi de mais e, como estou mais baixo que os ônibus e carros altos dos homens ricos, não fui visto a tempo da brecada no meio do cruzamento.

Com ou sem nome, todos somos um pouco atropelados por dia em uma dessas esquinas de São Paulo. Amanhã, vamos atravessar longe da faixa ou do sinal, porque há gente que acredite mais na sorte do que nas leis de trânsito. Ontem, fomos quase atropelados. Hoje, talvez morreremos. Sem nome ou com. 







quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Antes da separação


Ficamos casadas por três meses. Hoje comemoraremos o aniversário dela, mas não serei apenas feliz, porque já estou triste porque também é dia de ela se despedir do apartamento 1002. Amanhã ela me deixa, vai viver com outras pessoas e estou com depressão antes da separação.

O apartamento 1002 perde uma Bruna. A Mirela perde um pedaço do coração, completo por tantas pessoas que passam por aquela casa, mas que não tem como ser reposto.

A amiga, a Cristina, a Brunão, vai bater as asas no centro de São Paulo, na sua Camden Town. A menina mais fácil de se conviver, a menina que mais me critica e que mais me magoa e a que mais magoo por não sabermos dosar o amor uma pela outra. 

A partir de amanhã, não terei junto comigo a menina que senta no chão da área de serviço ou no (meu) balcão para dividirmos o tempo de um cigarro, ou mais do que um. Não falaremos sobre os vinhos que compramos quando chegamos em casa, só comprarei sabonetes com cheiro de nenê pra mim e terei que comprar pasta de dentes para o meu banheiro.

Não sentarei mais no chão do quarto dela para conversar pouco antes dela dormir, não ficarei frustrada por não vê-la acordada quando chego tarde em casa, não roubarei seu shampoo porque acho ele mais cheiroso que o meu (porque ela realmente é sempre a mais cheirosa). Também não terei que estender as roupas que ela esqueceu na máquina pra poder lavar as minhas.

Acabou os meus dias de ouvir ela falar sobre as coisas da vida dela, de dividirmos nossas teorias sobre meninos, de ficar muito brava porque ela não presta atenção no que eu contei pra ela por mais de duas horas.

Agora, continua meu amor e minha torcida - mais do que torço por mim - de que São Paulo continue maravilhosa pra ela, de que possamos transformar o centro da cidade no nosso centro de Nova Odessa e andarmos por ele aos domingos e de que possamos nos casar novamente em breve.

domingo, 12 de agosto de 2012

50

Hoje é um dia que eu gostaria de fazer além do que está no meu alcance. Por enquanto, é a hora de dizer sobre Maria, sobre Graça. E sobre mim.

Ela é a mulher misteriosa de quem sei quase nada e de quem sei quase tudo. É como minha irmã mais velha, com que já briguei mais do que com qualquer outra pessoa e agora, longe, sinto que estou ficando cada vez mais igual a ela. Ainda assim, mesmo sendo Maria mais teimosa que eu, continuo a querer ensiná-la tantas coisas.

Quando chego, Graça me recebe com um abraço quentinho e aconchegante seguido de críticas que me deixam furiosa. 

É Maria que, tão doce, vem se despedir de mim quando sai e ainda estou dormindo.

Ela que, mesmo em uma passado com gosto (meu) musical obscuro, me comprava CDs péssimos a contragosto, sem reclamar, mas deixava os de MPB e rock nacional dela ao meu alcance, o que com certeza me fez trilhar um novo caminho para o bom gosto.

É Maria que, mesmo sem dinheiro, às vezes enchia nossa geladeira de delícias para me agradar e que, quase juntas, terminávamos tudo em tão pouco tempo. Por isso ela é tão gordinha quanto eu. Hoje mais magra que eu. É com ela que eu disputava, todos os dias, de quem era a vez de apagar a luz antes de dormir.

É ela que vai continuar a assistir muitos filmes comigo e que nunca vai terminá-los, porque sempre dorme no meio.

Graça já está próxima, por alguns anos, de entrar na terceira idade, mas pra mim, Maria sempre terá 35 anos.

É ela que muitas vezes me colocou de castigo, me impediu de fazer coisas, me impôs muitos limites, o que me fazia odiá-la. Dez (e mais um pouco do que isso) anos depois, eu a amo por isso, porque ela fez exatamente a coisa certa. É Graça a da casa mais legal, local onde os meus amigos que namoravam escondidos se reuniam nas sextas-feiras, e ela acobertava tudo.

Maria quase nunca me bateu e uma das lembranças de dor por tapa que tenho é bem divertida, porque ela estava com vergonha do fato de eu rir muito alto em um espaço público.

Graça esteve comigo no primeiro passeio que quis fazer desde que me mudei para São Paulo e que me deixou com um vazio no peito quando voltou para Nova Odessa. Não, não quero que ela se mude pra lá.

É ela quem lia, antes que eu dormisse, os livros do Pequeno Príncipe, do Menino Maluquinho e o Segredo do Rei, motivos pelos quais ela tem parte responsabilidade por eu ser tão sonhadora e emotiva, ter sido tão bagunceira na escola, por me importar tanto com a felicidade e por saber desde tão cedo que preconceito magoa as pessoas.

É Maria que também me escondia o fim do Pequeno Príncipe e me enganava sobre Benji e sobre ET.

À ela, serei definitivamente grata, e a quem eu devoto momentos de agradecimento do meu dia, por ter assinado os gibis da Turma da Mônica durante tanto tempo, parte tão importante quanto a escola na minha alfabetização e no meu gosto pela leitura. Ainda hoje está entre as coisas que mais gosto de ler, não me estranhem. Meu desejo é que muitas Marias façam isso pelas crianças.

Não tenho certeza quais são as músicas e as bandas, cantores ou livros mais preferidos da Graça e não sei qual é a fruta ou qual a cor preferida da Maria. Sei, porém, que a Mirela pretende poder dar a ela tudo que ela gosta, tudo que ela quiser. 

É ela a quem jamais quero decepcionar. E é uma da outra que devemos cuidar.

Feliz 50 anos, Maria da Graça. Feliz aniversário, mãe!

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ao Dia da Avó

Hoje é Dia da Avó. Mesmo que haja dias para tudo nessa vida, pra mim e para o blog esse é um dia especial. Afinal, ele seria bem sem graça se não fosse o registro oficial das histórias da melhor avó de todas, a Zinha.

Para não deixar passar esse dia que tem gosto de bolinho de chuva e porque não estou lá para ficar com ela, vale narrar mais uma de suas rápidas atuações na minha vida.

Em mais um dos papos de cozinha, meus primos falam sobre comprar um cachorro.

- Não, compra um passarinho daqueles do Tio Julio. Como chama? Paroxítona.

- Não, vó. Não seria uma proparoxítona então?! - queria ver até onde ela ia.

- Não, boba, proparoxítona é remédio.

Obrigada por ser parte inquietante da minha existência, Zinha.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Perdemos Daniel Piza

Quando seus ídolos já estão mortos não deve ser tão difícil morrer. Foi este um dos pensamentos que me ocorreu, e que me consolou por ora, após a notícia, na véspera de Ano Novo, de que tínhamos perdido Daniel Piza. Pensei eu que ele estaria feliz de se encontrar com seu herói literário, Machado de Assis.

Mas perdemos Daniel Piza.

Por muito tempo vou gastar minutos do meu dia para acreditar que o perdemos. Uma vida, que quase como se fosse um assassinato, foi tirada por injustiça. E que Deus me perdoe por estar dizendo isso, mas sim, foi injustiça divina. Daniel Piza não tinha que morrer.

Ele era, para mim, exemplo de conhecimento e, por sorte, tenho comigo páginas de anotações das aulas de Jornalismo Cultural. Anotações que vou voltar a ler com a intenção de reencontrá-lo. E porque o perdemos tão cedo e porque não vou poder mais vê-lo tentando nos ensinar algo, sei que nunca serei pequena parte do que ele era, do que eu gostaria de ser, do que ele tanto sabia. E como não podia ser diferente, porque eu tinha que ter um jornalista amor platônico, ele era o meu.

E, ao longo dos últimos dias, voltei a pensar na injustiça com que a vida dele foi tirada. Tão triste para a família, triste para os amigos, triste para seus leitores. Mas ainda mais triste por Piza mesmo. Era ele que estava prestes, como ficamos sabendo após sua morte, a se mudar para Nova York - a cidade que esperava por ele. Um sonho que se realizaria, com certeza. O iPad, onde ele lia sua revista preferida - The New Yorker - talvez ficaria de lado porque ele poderia recebê-la em casa assim como qualquer cidadão americano. Ou poderia ir até a banca para comprá-la. Ele não fará isso. E isso é tão cruel com os sonhos de alguém que os merecia realizar, tão inconsolável.

É inconsolável saber que não leremos o que ele iria escrever de lá, que ele não poderá viver em Nova York o que planejava. 

Mas quem sabe, quando ao morrer, Piza ao poder escolher algo, decidiu então encontrar Paulo Francis. E eles estão lá agora, juntos, pensando em textos - e não apenas sobre o que acontece em Nova York - que nós, enquanto vivos, não poderemos ler.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Gostaria de ter dela

Hoje (porque o texto foi escrito originalmente em 17 de dezembro) é aniversário de uma já não menina, mas uma mulher menina que tem muito do que eu gostaria de ter. E, ao escrever isso, lembro que ela, por anos, tem tentado com que eu tenha. Muitas vezes sem sucesso.

É ela que, irritantemente, sempre tem razão. É nela que depositamos muitas das nossas decisões - coisa que temos certeza que ela nem sempre quer ter. E digo nós porque não sou só eu que dependo tanto disso. E como dependo. Como já dependi!

Se eu fosse ela, não seria mimada e não seria ciumenta. Falaria inglês. Se eu ouvisse ela, não me apaixonaria pelas pessoas erradas. E o poder de persuasão? Ah, como eu teria.

Ela é ótima professora e ótima tia e já tenho certeza, desde os 14 anos, que será uma ótima mãe. Do que temos em comum, queremos ser mãe de menino. Eu de um Téo, ela de um Miguel.

Ela é a irmã mais velha. E não só dos irmãos dela, mas de todas nós. É ela aquela considerada a melhor amiga de todas e aquela da qual, mesmo não querendo tanto assim, buscamos sempre a opinião.

E quem dera, se um dia eu pudesse ser ela. E quem dera, se eu tivesse as coisas boas que gostaria de ter dela - sim, ela tem coisas que não gosto nem um pouco, claro. 

Mas se eu pudesse ser ela, teria as respostas para as questões que ela faz. Respostas para questões que nunca sei e que tenho certeza que se fosse o contrário ela já teria opinado.

Queria ser ela pra ensinar a dividir, para ter razão, para ter os cabelos cheirosos e mãos e pés lindos. 

Queria ser Vanessa pra poder ser para ela o que ela é para a Mirela. 

Obrigada por ser tão presente - mesmo quando ausente. Feliz Aniversário!